Vou logo avisando: o texto é comprido.
Ontem, sexta-feira, foi dia de "happy hour" - um encontrozinho semanal entre amigos que rola aqui no jardim do prédio onde moro. Toda sexta a gente se reúne e enche a cara degusta alguma bebida com relativo teor alcóolico. Normalmente é cerveja, mas já tivemos a presença de whisky, caipivodka, rum e coca, vinho, e outras coisas que às vezes não deixam uma lembrança muito boa. Minha última experiência com uma garrafa de 51, lima da pérsia, açucar e gelo deixou marcas profundas... Por isso, a administração do evento (leia-se eu e o Luis Carlos, meu amigo) decidiu que ficaremos adeptos da cerveja mesmo. Com exceção de uma sexta por mês, quando nos manteremos fiéis ao bom e velho whisky com guaraná.
"Porra, quê que eu tenho a ver com isso?" - perguntaria você, caro leitor.
Nada. Absolutamente nada. Eu estou contando isso tudo para introduzir (ui!) a história que segue:
Ontem de tarde me dirigi ao supermercado (que não será identificado) próximo a minha casa onde compraria a cerveja que de noite seria consumida. Sexta-feira, supermercado cheio, filas quilométricas. Depois de colocar minhas compras no carrinho fui até um daqueles "caixas rápidos" que você encontra em qualquer supermercado de porte considerável. Máximo de 12 ítens. Conferi meu carrinho e tinha só 10, beleza. Com 4 pessoas só na minha frente, sairia de lá em 10 minutos.
Engano meu.
No caixa ao lado, também "rápido", entra na fila um senhor de aparência distinta. Barriga pronunciada, calvície se apresentando, aproximadamente uns 50 anos de idade. E o mais interessante, um carrinho transbordando de compras. Devia ter uns 100 ítens pelo menos. Olhei, fiz um comentário mental pra mim mesmo do tipo ' Mas que idiota' e continuei prestando atenção na minha própria fila.
Vai que atrás do sujeito encosta um outro cara com uma daquelas cestinhas de mão com 3 coisas dentro e na mesma hora ele fala pro primeiro que ele não pode estar ali.
Segue-se o diálogo:
- Como assim?
- Essa fila é pra coisa pouca.
- Esse caixa é igual a qualquer outro.
- Não é não. Esse aqui é só pra 12 coisas. O senhor vai ter que sair daqui.
- Chama o gerente pra me tirar.
Inacreditavelmente, como num passe de mágica, aparece um daqueles caras que a gente não sabe se é gerente, maitre, fiscal, ou puxa-saco do patrão.
- Meu senhor, esse caixa é expresso, é só pra 12 ítens no máximo.
- Esse é um caixa como outro qualquer. Eu não saio daqui. Tô pagando e tô no meu direito. Quero ver alguém fazer alguma coisa.
Eu, e mais a metade dos outros cliente, prestavamos atenção ao que se desenrolava ao meu lado. Foi aí que meu olhar cruzou com o do cara da cestinha atrás do sujeito. Ele olhou no meu olho e perguntou pra mim: "Isso é um abuso, você não acha?"
Eu dei uma daquelas respostas sem pensar. Quase algo automático. Só prestei atenção nas palavras que saíram da minha boca depois de tê-las dito. E garanto que assim que elas foram ouvidas pelos meus ouvidos eu pensei - "fudeu". Eis minha resposta:
- É. O cara é abusado. Devia estar na cadeia.
Senhoras e senhores, foi como se alguém tivesse aberto os portões do inferno. O sujeitinho (doravante denominado de 'mané') ouviu, avermelhou-se, virou-se na minha direção e começou a lançar impropérios, verborragias, e - dedo em riste - disse que eu o tinha ofendido que iria chamar a polícia.
Ato contínuo, o mané sacou um celular (daqueles mais simplesinhos) e ligou (ou fingiu) pra polícia, fez um discurso ressaltando a ofensa de sua honra, exigiu uma viatura no local onde seria averiguado 'in loco' o incidente e depois queria que eu (o ofensor), ele (o ofendido) e o gerente (apatetado sem fazer nada de boca aberta) fôssemos todos conduzidos à delegacia onde seria registrado o ocorrido. Alardeou aos berros que era advogado e que não iria deixar barato.
Enquanto isso, as filas andavam. Havia chegado a vez do mané e a caixa começou a registar os ítens dele. O gerente falava pra operadora " vai passando, vai passando". Ao meu lado, seguranças do mercado me olhavam sem entender o que acontecia nem saber o que deveriam fazer. O gerente me olhava com expressão de solidariedade e descrença. E o mané continuava pasando suas compras pelo caixa e inflamando cada vez mais seu discurso de revolta contra a ofensa, humilhação e maltrato que estava sofrendo naquele lugar.
O gerente se faz presente ao meu lado. Eu não tiro os olhos da entrada do mercado esperando que a qualquer momento Capitão Nascimento apareça, saco na mão, pra cuidar pessoalmente de mim. O gerente então me pergunta o que eu fiz.
- Eu? Nada.
-Como nada? O cara quer levar a gente pra DP e tu diz que não fez nada.
- Pois é, nada. Eu só respondi a pergunta desse moço aí. Ele perguntou se não era um abuso e eu disse que sim, que o mané era um abusado.
Pânico mental em milisegundos. Putz! Eu falei de novo... agora é que o mané vai mandar chamar até a SWAT pra me dar uma lição. Olho em volto procurando o cara pra confirmar se ele ouviu ou não. Não o acho. Pergunto pro gerente onde tá o mané. Ele também não sabe. Parece que viram o cara entrar no elvador que dá acesso ao estacionamento. O gerente manda um funcionário atrás dele. quase meia hora depois o funcionário volta e diz que nada do mané.
Acabei saindo de lá, devidamente autorizado pelo gerente (na base do 'leva, leva...') que chegou a conclusão de que o mané não tinha chamado polícia nenhuma. Levei comigo um pedido de desculpas da gerência do supermercado, caixas de cerveja, uma caixa de leite, pizza congelada e o sorriso constrangido de umas 50 pessoas que presenciaram tudo aquilo.
Eu poderia processar o supermercado? Não. Ninguém lá fez nada contra mim. Na pior das hipóteses seria constrangimento ilegal, mas nem isso aconteceu. Os funcionários de lá até foram bem solidários e simpáticos. Eu fiz alguma coisa errada? Pode ser que sim. Afinal, eu ofendi o mané quando o chamei de abusado? Acho que não. Ele realmente foi abusado. E acabou se dando bem, saiu do supermercado em 15 minutos com compras que levariam mais de meia hora sequer pra atingir o caixa. Se ele era mesmo advogado? Creio que não, assim como creio que ele também não tenha ligado pra ninguém. E se fosse, não faria diferença ele ser advogado, lixeiro, professor, pintor, etc. Ele foi esperto. Viu uma oportunidade e a agarrou com unhas e dentes. Deu sorte de não ter nenhum policial fazendo compras naquela hora e que estivesse disposto a se meter na história.
Concluindo, todos acabaram meio que lucrando nessa história toda, tomei um susto no momento inicial, fiquei realmente com medo de acabar sendo preso por algo sem importância, vou ficar meio envergonhado de entrar naquele supermercado por algum tempo, mas tudo está bem.
A cerveja foi devidamente consumida, 30 latas, e propriamente apreciada.
Agradeço ao mané por uma 'happy hour' mais animada.











































1 Sacaneadas:
Eu sou do tipo que não falo nada, fico na minha, sou meio otário para essas coisas, mas você não tem idéia o quanto isso me irrita. Eu não gosto de ficar discutindo picuinha, apesar de ser direito. Admiro muito quem tem a sua coragem, para mim, você fez o certo, talvez a menção da cadeia fosse exagerada, mas o resto corretíssimo. Parabéns!
Postar um comentário
Tá a fim de dar uma sacaneada na gente?
Vai em frente... pode falar o que quiser!
Só pedimos pra pegar leve nos xingamentos
=)
Abraços